. • Mazzucchelli, Cristiana & Fraipont, Edouard. FOTOGRAFIA DO NÚMENO / 1999

La vida, un ballet sobre un tema histórico, una historia sobre un hecho vivido, un hecho vivido sobre un hecho real.
Julio Cortazar, Rayuela (1968)

Por meio da criação de imagens fotográficas, o trabalho procura uma nova configuração na representação de vontades, sentimentos, angústias, ideais: a realidade interior – um processo englobando os pensamentos, a espiritualidade, as concepções e imaginações. A imagem fotográfica questiona a própria capacidade de documentação e criação, distanciando-se de sua iconicidade (semelhança com o real) em busca de oferecer a possibilidade de uma nova memória de um mundo intangível, mas inteligível, do inatingido mas desejado, reflexos de utopia e angústia.

A câmera fotográfica aparece como registradora com capacidades próprias. O filme testemunha o indício da presença do corpo frente a ela e do gesto expandido no espaço e no tempo, com a mediação dos processos físicos e químicos da fotografia.O corpo é, portanto, transformado em campos de cores vívidas e negadas, estruturas de luz e vulto na reafirmação do processo fotográfico.A luz recria no encontro entre o fenômeno e o aparato técnico a sua frente. O processo criativo se completa na resolução da imagem latente, no elo entre a ação e o acaso.

A construção parte do eu, da experiência pessoal, ou seja, do próprio corpo ou de estruturas e corpos próximos que sugerem uma intimidade, mas tendem a dissuadir uma aproximação voyeurística. O sujeito/objeto é fotografado não como um modelo identificável em sua individualidade, mas como presença, em busca de uma abstração essencial que crie personagens plurais. As imagens procuram a fluidez de leitura, soltas para a emoção, imaginação e memória daquele que as vê.

Em “Sendo um anjo 1” e “Sendo um anjo 2”, a imagem reflete o desejo de transformar o corpo numa apresentação de um ser espiritual, mediador entre o homem e a própria idealização para atingir suas vontades supremas: eternidade, liberdade e poder. A fotografia vem para possibilitar uma transformação, porém fictícia, de um corpo real na imagem virtual de um anjo. Falso testemunho, ativo criador, o processo fotográfico não mente por não se dispor a falar a verdade, mas simplesmente sugere.”Sendo um anjo 1” apresenta um corpo envolto em traços de luz azul num movimento de bater asas, vã tentativa de levantar vôo, mera representação em que se dá a transformação incompleta, limitada pelo quadro e pelo próprio ser estático ao centro.”Sendo um anjo 2” contrapõe, retorna o corpo, vermelho e quente, a sua carnalidade. O corpo sugere um levantar, despindo-se e incandescendo no desejo de uma transformação em ser espiritual, sem a perda do corpo e dos prazeres no êxtase supremo de ser um deus sem deixar de ser um homem.

Cristiana Mazzucchelli & Edouard Fraipont