. • Chiodetto, Eder. FOTOARTE BRASILIA / 2004

Fotografia, a escrita da luz, ganha no trabalho de Edouard Fraipont uma dimensão que oscila entre tradução mais prosaica do termo e uma inesperada conversão que se manifesta na expansão dos limites do território físico do artista.

Ao empregar seu corpo numa aventura que terminará por diluí-lo no espaço e tempo da escrita fotográfica, Fraipont dinamiza e reorienta duas questões caras à fotografia, o emprego da luz artificial e o auto-retrato.Tal reorientação se dá pelo fato do artista buscar um outro, na verdade outros, ao se auto-representar.Esses seres criados pelo artifício da luz e dos movimentos, que expandem o corpo, ocorrem numa espécie de representação teatral, num happening, em que o único espectador é a câmera.

Seres que não existem, que não podem ser vistos jamais, senão pelos vestígios luminosos que deixam gravado na película do filme fotográfico.Seres que vêm à luz pela ocorrência técnica da fotografia que possibilita ao artista escrever com luzes artificias no espaço onde deveria haver ausência de luz, o negro.Dessa forma, esses personagens de Fraipont emergem da escuridão, do negativo da luz, para riscarem o espaço com movimentos que conduzem eles próprios e o artista num mergulho profundo entre a autonomia do ser, a multiplicidade e a dissolução.

Tais seres, mais que apreendidos pela câmera, foram de fato aprisionados no espaço-tempo do obturador do aparelho.A gestação, a gênese, desses entes estranhos ocorre no átimo do risco luminoso que se desenha no espaço e sua reverberação no tempo do filme fotográfico.

Mas quem são e o que querem esses seres? Os trabalhos anteriores de Fraipont mostravam outros desses personagens em ambientes neutros, nos quais o corpo, a luz e a cor se diluíam numa atmosfera sem ambiência.Seres improváveis de qualquer ou nenhum lugar.Habitantes exclusivos do mundo interior.

Nesta nova e vibrante série seus personagens estão não apenas emoldurados pela arquitetura da cidade, mas interagindo com seus contornos.Intrínsecos à urbe, ilusionistas incandescentes da fauna urbana.

Regidos pela lógica matemática, por definição, a ciência racional que investiga as propriedades da grandeza em abstrato, os movimentos conceituais do artistas partem da idéia central da unicidade, o ser um [1], para enveredar pela possibilidade de ser outro [-1], ser nulo [0], ser parte [1/2], ser múltiplo [2] e ser indeterminado [X].Gestado pela e para a fotografia esses personagens partem da racionalidade para chegarem a auto-afirmação pelas operações matemáticas.

A recusa diante da idéia da completude em ser um resulta, enfim, na restauração de ser um integral ainda que multifacetado.Humaníssimo ser, indecifrável na sua totalidade, segregado em seu corpo-luz.

Eder Chiodetto