. • Oliva, Fernando. UM CORPO FUGIENTE / 2009

Um ponto de partida possível para nos aproximarmos da produção recente de Edouard Fraipont é refletirmos sobre o modo como o artista – no caso dos trabalhos aqui expostos também protagonista das imagens – se posiciona diante da paisagem. No lugar de se dirigir a ela, ou simplesmente habitá-la, a ela se funde, em processo que não acontece sem uma manifestação de vontade e liberação de desejos. Pois nem sempre esta figura que vemos perambular por estes espaços se apresenta de modo tímido ou submisso; ao contrário, reivindica uma posição de centralidade – e tomar este lugar, verdadeiro partido deste projeto, faz aqui toda a diferença.

Ao convocar para si esta tarefa e suas responsabilidades, o artista se lança em uma zona de instabilidade (o próprio espaço, sem limites ou parâmetros claros). Porém suas conquistas são proporcionais ao risco que se corre: o “herói” (seja mítico, ou super-herói de quadrinhos), antes de retornar ao ponto de partida e dar por concluído sua tarefa e o ciclo de construção da imagem, promove na paisagem uma espécie de fissura irreparável. Pois ela é retirada, por vezes violentamente, de sua condição de plano de fundo. De espectadora e cenário, é convocada a participar também como personagem desta ambiência e de suas narrativas.

Instaura-se assim um campo de trocas mútuas, como propôs Henri Lefebvre ao questionar a noção de paisagem como algo “exterior” a nós, como mais um gênero na história da representação. Segundo o filósofo francês (em A Produção do Espaço), não estamos fora dela, observando à distância um "lugar onde não estamos". Em seu conceito de "paisagem total" não há distinção entre lá e cá, pois a paisagem a tudo envolve e determina – como na mise-en-scene cinematográfica. Nesta acepção, mais do que observada ou sentida, a paisagem deve ser vivenciada, plenamente.

Não podemos esquecer, porém, da presença do dispositivo fotográfico, que assume aqui uma função bastante ambígua e interessante: a um só tempo parte da paisagem e responsável por transformá-la em imagem. A câmera integra este sistema em constante movimento: paisagem, artista, personagem, espectador. E, decisão fundamental na estratégia do projeto, ela é colocada em uma situação rara de independência, ao ser abandonada pelo artista, em sua missão de se transformar em protagonista. Prevalece aqui uma noção de jornada: atravessar, conquistar o espaço e ali criar algo inédito, “performar” algo novo, mantendo-se na fronteira entre o controle e o improviso, distante do aparelho, em confronto direto com o gigantismo, intempéries e ameaças da paisagem.

Fernando Oliva é curador, crítico e professor (docente na Faap, São Paulo).