. • Hill, Marcos. TEMPO, CORPO, CORPO, MEIO / 2000

Reflexões sobre o Tempo e o Corpo parecem permear as obras dos cinco artistas, todas medidas por recursos fotovideográficos.Em cada poética, a imensurabilidade corpórea comparece como tônica, submetida a deslocamentos do observador e do próprio olhar.Por mais individuais e íntimos que sejam, tais deslocamentos convergem em seus ensaios de resgate de um tempo interno como possibilidade de preservação da integridade do corpo.

A tentativa de conciliação do Humano, imerso em sua complexidade existencial com a parafernália tecnológica e industrial, é um desses indicativos que revelam uma preocupação latente, como se a capacidade de apreensão dos acontecimentos objetivos da vida estivesse fugindo, escapando entre os dedos.

Todos os cinco, a seu modo, encontram-se atentos aos riscos de desnaturação perceptiva e expressiva impostos pela cotidiano aceleração do tempo, invenção da sociedade urbana.Todos aspiram, desejam e criam, mantendo vivas suas vontades utópicas de preservar valores íntimos, caros a seus corpos, a seus pensamentos e a seus espíritos projetados em lugares de estar onde a dignidade humana flua mais espontaneamente.

Para Helene Sacco, tal aceleração, pelo menos, é um efeito detectável: a desatenção para importantes detalhes da vida.Seu trabalho reflete uma intenção: a de tornar perene tudo que nos liga à concretude da realidade que antecede o virtual.A artista busca, em sua poética, um resgate do registro corporal na memória dos objetos, evidenciando as marcas do uso impostas pelo corpo.A senhorilidade recuperada é oferecida, servindo de caminho que direcional o olhar para o "dentro".O "dentro" é o lugar das suas imagens, onde se inaugura um tempo renovado, o de uma contemplação garantida pelo deslocamento do observador que, transformado em voyeur, com o próprio corpo mergulhado na obra, reconstrói a sensualidade de visões privilegiadas da nudez feminina.

Edouard Fraipont fabrica, com suas imagens fotográficas, um lugar almejado entre a vida e a morte.Nele, voar, levitar, superar a solidão e o isolamento ressoam como uma promessa libertária.Por meio de alguns recursos essencialmente fotográficos, o artista redimensiona sua imagem, produzindo cores imateriais, promovendo diluições em todo e qualquer limite entre si mesmo e o espaço.Tais efeitos falam de um movimento motivado pelo desejo de superar o banalizado e o imediato, com vista a um lugar de neutralidade, menos permeável aos densos condicionamentos impostos pelo mundo externo.

Diante das fotografias de Kátia Prates, o observador não resiste a seus efeitos envolventes.Situações estereotipadas de existência são transpostas para o mundo dos brinquedos, instigando os resquícios de fantasia infantil que um de nós possui.Seus enquadramentos, dramaticamente hipertrofiados, sangram, com ironia, imagens conseguidas no universo das miniaturas, estimulando, por meio de gestualidade estudada, uma representação dinâmica de acontecimentos.Em cada um dos "fotografas" expostos, encontra-se insinuada uma temporalidade sobreposta.Nessa fusão de tempos, a cena apreendida mantém uma densidade que mobiliza que o imaginário do observador em relação à continuidade da ação congelada pela fotografia.No faz-de-conta ao qual a artista recorre, processa-se um distanciamento do corriqueiro, nos remetendo a situações graves do viver.

Em suas especulações espaço-temporais, Rodrigo Paglieri se apropria da tecnologia do video para discutir, entre outras coisas, o valor metafórico da beleza do corpo registrado em múltiplas passagens sucessivas e sobrepostas, em meio a dimensões intensivamente alteradas.Na video-instalação Fluxu, a lentidão de tais passagens introduz o observador em um tempo igualmente contemplativo, visando a sutilezas sensoriais.Esse ritmo sugere a neutralização do tempo convencionalmente proposto pelas mídias eletrônicas.A força simbólica da água, que a tudo assiste, referenda a concomitância tranqüila de ausências e presenças de um corpo intencionalmente belo a desprezar as tendências da Arte de hoje que se apropriam da cor, do sofrimento e da angústia.Há em sua obra a reafirmação do Belo platônico, teor estético que o artista deseja resgatar para nossa época transformada.

Maria Ivone dos Santos fixou seu tempo expressivo no gesto.No registro fotográfico da gestualidade de suas extremidades corporais, a artistas encontrou a razão de entrelugares íntimos, cheios de temperatura: os vazios entre os pés e mãos unidos, os vazios impalpáveis dos gestos, os vazios entre os dedos e dedais simbólicos.São marcas terrestres do corpo que se apresentam por meio de sucessivas e reveladoras interrupções temporais, seus registros fotográficos.Aspira-se ao inventário de uma memória que garanta a possibilidade de futuros projetos.Tal inventário encontra-se amalgamado na instalação Cabine de Projeção, em que resíduos de trabalhos já realizados convivem com hipóteses prospectivas, convergindo para a materialização do espaço mental de Maria Ivone, franqueado corajosamente ao observador que nele entra com seu corpo e com seu olhar.Nessa situação espacial, penetra-se em uma qualidade de siléncio própria a um pensamento ávido dos mistérios do criar.

Nas cinco poéticas o Tempo e o Corpo comparecem como fios de Ariadne em meio à labiríntica urbanidade contemporânea.A ameaça de se perderem entre os deslocamentos velozes da tecnologia parece estar sendo questionada por todos nos mergulhos que promovem para dentro de suas respectivas subjetividade.Preservar na memória a integridade dos corpos, dos afetos, dos fazeres, de tempos e de espaços aparece aqui como um propósito sutilmente sugerido pelos recursos fotovideográficos que se potencializam como meios de expressão íntimos.