. • Selma, Gleide. APARIÇÕES / 2006

A figura presente no trabalho de Edouard Fraipont resulta de uma expressão que só ganha forma pela fotografia. Tomadas em situações de pouca ou nenhuma luz, as imagens desta mostra apresentam seres transformados por meio de rastros luminosos e movimentos que o artista executa com seu próprio corpo e que se imprimem na película fotográfica.
A medida humana calculadamente expandida pelo uso da luz artificial de modo a adquirir proporções estranhas a si mesma e a seu entorno. Jogando com os limites do auto-retrato, Fraipont explora as possibilidades de representação de si mesmo em uma combinação ora mais precisa, ora mais lírica com os aspectos plásticos de paisagens comuns.
Quando contrastam com a escuridão de ambientes neutros, a posição, o movimento e a escala das figuras criadas pelo artista sugerem uma escrita a partir do corpo em paralelo com o universo simbólico da matemática. Fugindo de sua unicidade representativa, Fraipont se desmaterializa para ser outro, parte de si, ser múltiplo de si, ser nenhum ou simplesmente para indeterminar-se.
Em ambientes pontuados por elementos naturais, os seres encarnados por Fraipont funcionam como aparições que reordenam a percepção de toda a paisagem.Na série desenvolvida na praia dos Carneiros, litoral sul de Pernambuco, sua estética ganha aparência mais fria e melancólica, seja pela frontalidade, pela distância ou pela solidão dos personagens que parecem assombrar essas cenas noturnas.
Perdendo-se ao nível do acontecimento fotográfico e atuando na horizontalidade do que se passa apenas diante da câmera, Edouard Fraipont assume o que há de ilusionismo na fotografia, arte que que desde sempre engana pela impressão de realidade.

Gleide Selma